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Mostrando postagens de junho, 2019

Zuleica e Terezinha

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Marcus Vinicius Batista Zuleica e Terezinha se encontraram na semana passada. Elas não se viam desde o réveillon. O último encontro foi festivo, claro, e aconteceu na praça em frente ao Aquário Municipal de Santos. As duas retornavam da praia, onde assistiram à queima de fogos. Além dos desejos de praxe, as duas conversaram sobre netos, família e do momento em que todos se reuniram. Resolveram caminhar juntas, alternando diálogos entre si e com parentes que as acompanhavam. Eram vizinhas na rua Roberto Sandall e só descobriram a proximidade geográfica um ano antes. Zuleica e Terezinha eram vizinhas de janela, no décimo andar, embora morassem em prédios diferentes. Eventualmente, uma ouvia a outra, mas sem possibilidades de réplica, discussão ou fofoca. O banheiro do apartamento de Terezinha podia ser visto pela janela de um dos quartos do imóvel de Zuleica. Aí entra certa responsabilidade minha. Eu as apresentei. Zuleica era minha mãe. Terezinh...

As perdas

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Marcus Vinicius Batista Alice tem 50 anos, é psicóloga-pesquisadora na Universidade de Harvard, no Estados Unidos. Casou-se com um cientista, com quem teve três filhos. Vive entre aulas, viagens internacionais para conferências e elaboração de textos científicos. É conhecida, no meio acadêmico, não apenas pela qualidade de suas pesquisas, mas também pela memória infalível para citar dados e trabalhos na sua área. Joan Didion também é norte-americana. Escritora renomada, é casada com outro autor literário, com quem teve uma filha, hoje na casa dos 40 anos, como os filhos de Alice. Possui uma vida estável, que permite a ela escrever em tempo integral, sem se preocupar com outras atividades profissionais. Alice começou a ter problemas de esquecimento . Não se lembrava onde deixara o carregador de celular. Ao correr no parque, não conseguiu – por alguns minutos – organizar o caminho de volta para casa. Perdeu uma viagem de avião. Entrou em sala de aula e não s...

Até o Fim

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Marcus Vinicius Batista Dona Eguimar Mendes tem 61 anos. Sofre de um tipo de câncer que ataca os glóbulos brancos. Esta semana, parou no hospital por causa de uma crise renal. Para ela, dor maior do que os partos dos nove filhos. A ex-funcionária pública Silvia Gonçalves, de 48 anos, convive com a neurofibromatose tipo 1, doença neurológica que levou dois de seus três filhos. Em um sonho, a mãe disse a ela que a vida viraria de cabeça para baixo. A dona-de-casa Sandra Coutinho tem a mesma idade de Silvia. Também possui um filho, de 16 anos. Sandra sofre de lúpus, doença auto-imune que – silenciosamente – ataca vários órgãos de forma simultânea. Ela perdeu as contas de quantas vezes foi desencorajada pelos médicos a engravidar. A veterinária Fabíola Perroni, aos 36 anos, luta contra a esclerose múltipla, doença neurológica degenerativa. Casada e com dois filhos, Fabíola entende que Deus lhe deu como presente uma cruz para carregar. As quatro mulh...

O cemitério dos vivos

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Marcus Vinicius Batista Vivo em um cemitério. Nele, não vive somente quem morreu. Ali, descansam as ideias, jazem os sonhos, repousam os desejos, desencarnam os idealismos. Em volta deles, vagam as desilusões, flutuam as invejas, assombram os provincianismos, sempre velados pelas referências autoelogiosas, pelas trocas de sorrisos desdentados dos mortos-vivos. Os mortos são os menos culpados das dores que os cercam. Eles não metem medo, não incomodam, seguem suas próprias vidas, não se intrometem no que acontece além de seus jazigos. Suas sepulturas não marcam em pedra seus passados balizados por duas datas. Suas sepulturas os protegem dos vivos . Gostaria tanto de conversar com os mortos. Construo diálogos sofisticados com a sabedoria de quem se foi e aprendeu com a mudança. Imagino uma nova biografia sem as prisões do espaço, do tempo, das convenções, dos teatros que os transformaram em bonecos produtivos, agarrados em personagens com títulos de nobreza. No cem...

A matemática da UTI

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Marcus Vinicius Batista A UTI é um lugar de espera. Depois de quatro experiências, que envolviam visitas diárias, você aprende que a UTI é também um endereço onde a humanidade mede forças com a matemática. Paciência, resignação, indignação e solidariedade são elementos de resistência contra os números que preenchem as paredes brancas, os corredores beges e as luzes 24 horas. Minha mãe, por conta de um enfarto e de complicações respiratórias provocadas pela chamada pneumonia de UTI, ficou internada por 45 dias . Para encontrá-la, apenas meia hora de visita para duas pessoas, sem revezamento, tão comum nos quartos de hospital. Lá faleceu. A espera e a matemática marcam todas as etapas do ritual de visitação. Os números do relógio apontam, com o rigor de estação de trem , o horário de entrada. No térreo do hospital, a repetição dos mesmos números: a carteira de identidade, o número da ala. Recebemos o adesivo que estampa no peito o número do lugar...

Uma senhora sábia

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Marcus Vinicius Batista Minha avó viajou há dois anos. Não voltou mais. Se fosse uma criança, talvez engolisse a justificativa que mascara a finitude. Como adulto, finjo aceitar a explicação para atordoar a saudade. A personalidade incomum começava pelo nome incomum. Norvina não é exatamente a última moda nos cartórios ou nas revistas de pais e filhos. E não é único. Outras duas mulheres receberam o mesmo nome, na mesma cidade, no interior de Minas Gerais. E nasceram na mesma época. Talvez uma tendência local; assim, incomum. Ou um instante de criatividade coletiva . Dona Norvina foi a pessoa mais sábia que conheci. A sapiência dela não estava nos livros nem nos diplomas que nunca teve. Saber não era arrotar informação de almanaque. Saber era explodir em humanidade. Explosão que significava mastigar, em si, o melhor e pior, sem se martirizar por tal condição. A profundidade do relacionamento entre nós se sustentou, nas minhas lembranças, pelas sutilezas das pequenas ex...