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Mariângela gostava de conversar

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Marcus Vinicius Batista Quando ela me chamou pela primeira vez, eu achei que não era comigo. Começava a subir a rampa do supermercado, que atravessava cinco vezes por semana, no caminho mais curto para casa. Era hora do almoço, tinha deixado meu filho na escola e estava com pressa, repassando compromissos na cabeça. Mariângela foi coerente. Persistente como ela mesma. Insistiu. Falou mais alto. Repetiu meu nome. Logo, passou a balançar o braço direito e gritar: “Menino! Menino! Menino!” Parei, a reconheci e esperei que ela descesse a rampa com quatro, cinco sacolas de supermercado. Foi no final do ano passado, provavelmente novembro. Foi a última vez que nos encontramos. Mariângela Duarte era assim. Objetiva, determinada, conversadeira, tinha que dar seu recado. Logo que nos cumprimentamos, ela me surpreendeu. Perguntou do meu último livro, “O Lobo, o Urso e a Cura”. Não imaginava que soubesse dele. Não só sabia, como conhecia detalhes. Queria ...

O exemplo de Teresa e Dona Glória

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Marcus Vinicius Batista A notícia de uma morte já me faz parar. A notícia da morte da mãe de alguém que prezamos me atrai a atenção e o cuidado para entender melhor o que aconteceu, como posso me aproximar. O pedido de Teresa, esposa do meu primo João Carlos, para que ninguém fosse ao velório e ao enterro de Dona Glória, mãe dela, me comoveu, mudou meu dia, me trouxe lágrimas aos olhos quando comentei com minha esposa no café da manhã. Só sosseguei quando resolvi escrever após tanto pensar nas duas nos intervalos do dia. Sei que, culturalmente, o ritual de morte é a última chance de nos despedirmos de alguém, ainda que o corpo seja a materialização simbólica, ainda que a presença de pessoas simbolize o apreço e/ou as convenções sociais em torno de um funeral. É parte do luto, um caminho de sentimentos e emoções variados em torno de uma perda. Um caminho sem receitas, construído por cada um a seu modo, no seu tempo. No entanto, o que pensamos ou co...

Neuza, sempre jovem

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Marcus Vinicius Batista Neuza Felício sempre foi um doce comigo. Além da educação de todo dia, ela tinha um assunto a tratar todas as segundas-feiras: minha antiga coluna semanal no Boqnews. Quando era crítica política, ela me alertava: “você ainda vai perder o emprego”. E sorria. Quando era uma crônica convencional, nascia um papo por identificação com o personagem, com o episódio, uma pequena lembrança cotidiana que reforçava nosso vínculo de amizade antes das minhas aulas. Numa segunda-feira, há oito anos, não houve bom dia ou tudo bem. Tampouco o sorriso. As frases vieram secas: “ Não sou velha! Como você pôde me chamar de velha?” Um ou dois segundos para me recompor da lambada auditiva e entender o que se passava. Claro, era o texto publicado no dia anterior. “O tempo é hoje!” dizia exatamente o contrário, que a velhice era uma questão de mentalidade, que poderíamos questionar expressões politicamente corretas, exercícios que mascaravam as mudanças c...

Zuleica e Terezinha

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Marcus Vinicius Batista Zuleica e Terezinha se encontraram na semana passada. Elas não se viam desde o réveillon. O último encontro foi festivo, claro, e aconteceu na praça em frente ao Aquário Municipal de Santos. As duas retornavam da praia, onde assistiram à queima de fogos. Além dos desejos de praxe, as duas conversaram sobre netos, família e do momento em que todos se reuniram. Resolveram caminhar juntas, alternando diálogos entre si e com parentes que as acompanhavam. Eram vizinhas na rua Roberto Sandall e só descobriram a proximidade geográfica um ano antes. Zuleica e Terezinha eram vizinhas de janela, no décimo andar, embora morassem em prédios diferentes. Eventualmente, uma ouvia a outra, mas sem possibilidades de réplica, discussão ou fofoca. O banheiro do apartamento de Terezinha podia ser visto pela janela de um dos quartos do imóvel de Zuleica. Aí entra certa responsabilidade minha. Eu as apresentei. Zuleica era minha mãe. Terezinh...

As perdas

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Marcus Vinicius Batista Alice tem 50 anos, é psicóloga-pesquisadora na Universidade de Harvard, no Estados Unidos. Casou-se com um cientista, com quem teve três filhos. Vive entre aulas, viagens internacionais para conferências e elaboração de textos científicos. É conhecida, no meio acadêmico, não apenas pela qualidade de suas pesquisas, mas também pela memória infalível para citar dados e trabalhos na sua área. Joan Didion também é norte-americana. Escritora renomada, é casada com outro autor literário, com quem teve uma filha, hoje na casa dos 40 anos, como os filhos de Alice. Possui uma vida estável, que permite a ela escrever em tempo integral, sem se preocupar com outras atividades profissionais. Alice começou a ter problemas de esquecimento . Não se lembrava onde deixara o carregador de celular. Ao correr no parque, não conseguiu – por alguns minutos – organizar o caminho de volta para casa. Perdeu uma viagem de avião. Entrou em sala de aula e não s...

Até o Fim

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Marcus Vinicius Batista Dona Eguimar Mendes tem 61 anos. Sofre de um tipo de câncer que ataca os glóbulos brancos. Esta semana, parou no hospital por causa de uma crise renal. Para ela, dor maior do que os partos dos nove filhos. A ex-funcionária pública Silvia Gonçalves, de 48 anos, convive com a neurofibromatose tipo 1, doença neurológica que levou dois de seus três filhos. Em um sonho, a mãe disse a ela que a vida viraria de cabeça para baixo. A dona-de-casa Sandra Coutinho tem a mesma idade de Silvia. Também possui um filho, de 16 anos. Sandra sofre de lúpus, doença auto-imune que – silenciosamente – ataca vários órgãos de forma simultânea. Ela perdeu as contas de quantas vezes foi desencorajada pelos médicos a engravidar. A veterinária Fabíola Perroni, aos 36 anos, luta contra a esclerose múltipla, doença neurológica degenerativa. Casada e com dois filhos, Fabíola entende que Deus lhe deu como presente uma cruz para carregar. As quatro mulh...

O cemitério dos vivos

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Marcus Vinicius Batista Vivo em um cemitério. Nele, não vive somente quem morreu. Ali, descansam as ideias, jazem os sonhos, repousam os desejos, desencarnam os idealismos. Em volta deles, vagam as desilusões, flutuam as invejas, assombram os provincianismos, sempre velados pelas referências autoelogiosas, pelas trocas de sorrisos desdentados dos mortos-vivos. Os mortos são os menos culpados das dores que os cercam. Eles não metem medo, não incomodam, seguem suas próprias vidas, não se intrometem no que acontece além de seus jazigos. Suas sepulturas não marcam em pedra seus passados balizados por duas datas. Suas sepulturas os protegem dos vivos . Gostaria tanto de conversar com os mortos. Construo diálogos sofisticados com a sabedoria de quem se foi e aprendeu com a mudança. Imagino uma nova biografia sem as prisões do espaço, do tempo, das convenções, dos teatros que os transformaram em bonecos produtivos, agarrados em personagens com títulos de nobreza. No cem...